
Promotor de Justiça de Bento Gonçalves, Elcio Resmini Meneses
Recente fato aflora uma discussão que perpassa pela análise da violência como produto de relações sociais gestadas na rua e executadas no espaço social escolar, sem que por vezes estejam os atores que gerenciam tal espaço conscientes de que escola não está mais imune aos conflitos urbanos.
A morte de um educador, em Vacaria, atingido por um golpe fatal da violência, exige uma compreensão do espaço social e socializador que a escola representa, em meio a um poder simbólico que ainda exerce. É a escola, ainda, uma das instâncias da sociedade disciplinar, como aquela capaz de dizer o certo e o errado? Ou está ela inserida em uma sociedade de controle, como expressou Foucault, onde todos controlam todos e o Poder a todos controla?
Pois fatos semelhantes ao que gerou a lamentável perda de uma vida humana estão espalhados por todos os cantos escolares, onde jovens (no caso citado, adolescentes, mesmo que não autores do crime) põem à prova o disciplinamento em uma sociedade de controle, onde o adulto, em uma relação contraditória, marcada pela tensão e desconfiança do jovem, interfere para resolução não violenta de conflitos. A questão é: estão os educadores preparados para, como apontava Kant, serem o elo entre a escola e a sociedade moderna, no exercício de um poder disciplinar (disciplina-corpo), do qual depende a capacidade de autogoverno?
E, para que a escola possa exercer essa não tão nova, mas difícil missão socializante, há necessidade que as políticas públicas reconheçam o ambiente escolar como investimento prioritário no acompanhamento das relações sociais, onde a violência que se instala, embora urbana, tem sido chamada de escolar. Se assim não for, depois de muito tempo permaneceremos na ignorância adultocrata de ver a juventude no dualismo: jovem marginal e jovem esperança.
Pois as políticas públicas a serem reconhecidas em função da escola, nessa perspectiva de violência urbana que presume dominação, deve, afora os meios neutralizadores culturais (música, discussões transversais) e sociais (escola aberta), investir no educador, para que possa ser ele um gerenciador da resolução não violenta de conflitos, permitindo que o princípio de solidariedade da educação popular de Paulo Freire possa apresentar aos jovens o verdadeiro “sentido do outro”.