
Promotor de Justiça de Rio Grande, Paulo Avila
Difícil negar que, hoje, em vista de alguns dados objetivos, nossa vida é bem mais fácil que a de nossos antepassados em certos aspectos. Basta citar, por exemplo, a crescente expectativa de vida para concluir que, se há sensação de que estamos a piorar, isso não pode estar relacionado apenas a circunstâncias concretas de nossa realidade. O que, então, pode estar gerando a visão pessimista sobre o futuro que muitos externam? Entendo que o sentimento de desesperança por muitos sentido pode decorrer, dentre outras razões, do fato de nosso progresso moral não estar acompanhando o desenvolvimento em outras áreas. Salvo raras exceções, queremos alcançar bom nível de conforto para nós mesmos e para nossas famílias, nenhum problema, em princípio, havendo nisso. Do mesmo modo, após satisfazermos necessidades prementes, é natural que busquemos satisfazer desejos relacionados à auto-estima.
Torna-se preocupante a situação, contudo, quando não utilizamos os conhecimentos que acumulamos para aprimorar nossos valores e nossa maneira de agir. É grave que deixemos de refletir, atuando mecanicamente em vista de impulsos reforçados pelo meio em que nos encontramos. É de se lembrar o que a sempre citada Hannah Arendt revelou sobre a banalidade do mal.
Pois, hoje – assim como ontem -, o mal surge, por exemplo, na supervalorização do sucesso, que, desacompanhada de preocupações éticas, leva ao individualismo e a uma excessiva competitividade - infelizmente tida por natural e necessária para o progresso econômico, para o êxito no emprego etc. Surge o mal, ainda, da indiferença de muitos ao sofrimento alheio, que somente é visto como relevante quando eventual concessão de auxílio pode gerar algum benefício próprio. Isso não é surpresa em sociedade cada vez mais individualista, na qual os ganhos financeiros e a notoriedade são as principais medidas de evolução. De qualquer maneira, mesmo o auxílio a outrem decorrente de motivos pouco nobres é melhor do que a despreocupação de grande parte das pessoas com qualquer espécie de conduta altruísta, visto o altruísmo não apenas como a doação de bens ou dinheiro.
Temos tendência de encarar a vida como uma espécie de competição, buscando ver quem acabará em vantagem na perseguição do apogeu, como se isso realmente fosse uma competição com os outros. Todos estamos sujeitos a esse mal, bastando que nos deixemos influenciar por ambientes desfavoráveis. A mudança desse estado das coisas somente vai ocorrer quando, ao agir, deixarmos de ter os outros como foco exclusivo de nossas críticas, voltando-nos, também, para nós mesmos, não para que sintamos culpa ou para que geremos outros problemas emocionais, mas para que possamos ver até que ponto realmente temos razão em cada situação do nosso dia-a-dia. Para que descubramos se o motivo daquilo que tomamos por ofensa ou contrariedade não é apenas orgulho ferido – sendo o orgulho sentimento que pode ser caracterizado como defeito, mas que se costuma ver como qualidade.
Temos que passar a fazer o certo sem provocação e sem esperar, por medo de ficar em desvantagem, que os outros também o façam. Pode ocorrer que se aproveitem da nossa boa-fé, mas não podemos aguardar pela iniciativa de terceiros para mudar nossa realidade, deixando que os exageros dos outros façam com que também reajamos de forma desmedida.
Nossa mudança, que refletirá na sociedade, só depende de nós mesmos. Para que comece a ocorrer, basta que tenhamos humildade para vê-la como necessária.